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13/05/2020 / 23 dias ½ atrás

Resenha do livro Berta Isla, de Javier Marías - Por @taizze

Resenha do livro Berta Isla, de Javier Marías - Por @taizze

-Texto originalmente publicado no site:

Rizzenhas, por Taize Odelli

Berta Isla e Tomás Nevinson se conhecem desde a adolescência. Cresceram em Madrid, mas Nevinson tem dupla nacionalidade – a mãe é madrilenha, o pai é inglês. Por isso mesmo, após o colegial, ele parte para Oxford, onde chamu a atenção de um professor que havia trabalhado para o MI6 durante a Segunda Guerra Mundial. Nos últimos anos da ditadura de Franco, Nevinson se vê recrutado – praticamente obrigado – a trabalhar como agente secreto.

Berta Isla (Companhia das Letras, tradução de Eduardo Brandão) é um livro sobre espionagem, mas do ponto de vista da mulher do espião. Ele retorna ao tema e a personagens de Seu rosto amanhã, romance dividido em três volumes. Ao se casarem jovens, Tom e Berta não passam muito tempo juntos por conta do trabalho dele. Para Berta, ele é um funcionário comum do Foreign Office do consulado britânico na Espanha, e suas ausências quando viaja se justificam. Mas ele vive, claro, uma vida dupla que ela desconhece.

O talento de Nevinson é sua facilidade para aprender novos idiomas e imitar sotaques com perfeição. Não temos acesso aos trabalhos que ele realiza para o MI6, mas podemos imaginar que, com esse dom, ele é um infiltrado. Tom sempre imaginou que teria uma vida pacata ao lado da noiva, não pensaria nunca em se envolver em atividades secretas que pudessem pôr em risco Berta e sua futura família. Mas para se livrar de um problema em Oxford e pagar pelo “favor” que recebeu, entra no esquema.

Berta não desconfia das atividades do marido, é bem alheia ao que ele lhe conta sobre os dias no escritório e sobre suas viagens a Londres. Porém, ao receber a visita de um casal que recentemente havia se aproximado de uma Berta solitária em Madrid, uma luz vermelha se acende sobre a ocupação do marido. É a partir daí que Berta descobre que ele é espião, que as viagens que faz não são nada diplomáticas, e Marías parte para uma narrativa sobre a desconfiança conjugal.

Marías tem seu estilo inconfundível de contar uma história. Como em seus outros romances, o próprio Seu rosto amanhã e Os enamoramentos – um dos meus livros favoritos –, é o drama interno que toma conta do livro. As reflexões são longas, abarcam todas as possibilidades de acontecimentos e consequências. Os diálogos são explicativos, como se fossem curtos ensaios falados das personagens. E as referências literárias estão presentes com destaque: Nevinson é um ávido leitor de T. S. Elliot, as citações de seus poemas são constantes. Assim como as comparações que Berta faz de sua vida com obras de Shakespeare e com O coronel Chabert, de Balzac – novela que também foi citada em Os enamoramentos. Essas histórias são usadas como que para ilustrar e dar sentido a uma vida marcada pela dúvida.

O romance tem duas vozes narrativas: uma em terceira pessoa, onisciente, que dá conta dos acontecimentos que envolvem Tom Nevinson e a juventude do casal. Mas ao passar para a vida de matrimônio, a solidão e a descoberta das ocupações do marido, é Berta quem narra diretamente. Ela é uma mulher extremamente inteligente, seus pensamentos não são causados por ciúme ou pelo medo de ser enganada. Ela tem é curiosidade para entender como o homem que sempre amou conseguiu manter sua vida profissional escondida dela por tanto tempo. Em como nossa percepção sobre a pessoa amada pode mudar drasticamente ao conhecermos seus maiores segredos.

Ambos mantêm o relacionamento, mas esses pensamentos não param de rondar a cabeça de Berta. Que tipo de tarefas ele é obrigado a fazer? Ele é um espião “inofensivo”, que apenas recolhe informações, ou ele já teve que matar, trair, causar mal direto a alguém? Conforme tenta arrancar algum tipo de informação do marido, Berta começa a se preocupar ainda mais com o que ele é obrigado a fazer. Não só por ter medo de como seus filhos podem ser afetados por isso, mas também ao pensar nas sequelas que isso causa a Tom. Ele deixa de ser uma boa pessoa, bom marido e pai, sendo um espião, podendo colocar outras pessoas em perigo? Ele se arrepende do que faz?

A esses questionamentos, Tom adota o discurso corporativo. Ele não se arrepende do que faz, pois está trabalhando para “o bem maior”, a “proteção do reino”. Como ele repete muitas vezes, o que ele fez não existe, assim como as identidades que assumem não existem. É como se nada tivesse acontecido. E se não fosse ele, seria outra pessoa. Se não fosse ele, a Inglaterra sofreria consequências tenebrosas. Berta questiona a toda hora esse patriotismo dele, esse respeito pela Coroa em detrimento do país onde realmente cresceu e, oficialmente, vive. São várias as discussões entre os dois sobre a ética desse trabalho, a necessidade de ele se arriscar e arriscar a quem ama pelo bem de uma nação que, para ela, nem é verdadeiramente sua. E quem lê nota essa mudança também: o jovem Nevinson do início do livro é bem diferente do Nevinson adulto.

Eu li dois volumes de Seu rosto amanhã e, confesso, não gostei tanto da história. Não sei se era porque na época eu estava avoada com a leitura, não conseguia me concentrar direito, mas lembro que era um romance extremamente arrastado. Berta Isla é mais direto, mas com esse inconfundível jeito de narrar de Marías, que abusa das frases longas e da análise profunda sobre tudo o que está acontecendo.

Acho que, por ser contado pelo ponto de vista de Berta, fiquei muito mais presa a esse livro. Porque não é uma história de espionagem, é uma história de relacionamento. A espionagem é só um pano de fundo para o autor discutir o amor e a confiança, a moral e a ética do trabalho que Tom faz. E também a possibilidade de conviver com alguém que sempre terá uma parte de sua vida escondida.  

Para quem ainda não conhece a obra de Javier Marías, sempre recomendo começar por Os enamoramentosAssim começa o mal ou O homem sentimental. Agora, Berta Isla entra também nessa lista, por ser bem mais acessível do que Seu rosto amanhã. Agora até fiquei com vontade de dar uma nova chance ao romanção de Marías.
 

 

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